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Futebol rico, clubes endividados: o paradoxo financeiro do futebol brasileiro

  • Writer: Alexandre Franco
    Alexandre Franco
  • 4 days ago
  • 4 min read

Em pleno clima de Copa do Mundo, quando os olhos do planeta se voltam para o futebol, uma contradição chama a atenção no Brasil: os maiores clubes do país nunca arrecadaram tanto dinheiro, mas continuam cada vez mais endividados.


Segundo estudo da Sports Value, os 20 maiores clubes brasileiros alcançaram receita recorde de R$ 10,9 bilhões em 2024. Ao mesmo tempo, encerraram o exercício com dívidas agregadas de R$ 12,2 bilhões e déficit superior a R$ 1,3 bilhão.


E esse é o paradoxo: futebol rico, mas clubes cada vez mais endividados.


Ilustração sobre a crise financeira dos clubes brasileiros de futebol, mostrando a Taça da Copa do Mundo ao lado de uma bola de ferro simbolizando dívidas, com estádio ao fundo e a chamada "Futebol Rico, Clubes Endividados".

À primeira vista, os números parecem incompatíveis.

Como é possível arrecadar mais de dez bilhões de reais e ainda assim aumentar o endividamento?

A resposta está menos na capacidade de gerar receitas e mais na qualidade da gestão financeira.



O problema não é o faturamento

Ao longo dos últimos anos, os clubes brasileiros ampliaram significativamente suas fontes de receita. Direitos de transmissão, patrocínios, programas de sócio-torcedor, bilheteria e transferências de atletas fizeram o mercado atingir patamares históricos.


No entanto, em muitos casos, cada aumento de receita foi acompanhado por um aumento ainda maior dos gastos:


  • Folhas salariais cresceram;

  • Comissões cresceram;

  • Premiações foram antecipadas em contratações;

  • Novas dívidas substituíram dívidas antigas.


O resultado é um fenômeno conhecido no ambiente empresarial: crescimento sem geração de valor.


Os números melhoram.

O caixa não.



Os clubes mais endividados do Brasil

O ranking de endividamento de 2024, elaborado pela Sports Value, mostra um cenário preocupante:


  • Corinthians lidera com R$ 1,9 bilhão em dívidas;

  • Atlético-MG aparece na sequência com R$ 1,37 bilhão;

  • Cruzeiro, Vasco e São Paulo completam os cinco primeiros colocados;

  • O Internacional aparece na sexta posição, com R$ 834,8 milhões de dívidas;

  • O Grêmio ocupa a décima primeira posição, com R$ 562,3 milhões.


Ranking dos clubes brasileiros mais endividados em 2024, liderado por Corinthians, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Vasco, São Paulo e Internacional, acompanhado de indicadores de liquidez e capital de giro.


O caso dos clubes gaúchos

A situação dos dois principais clubes do Rio Grande do Sul merece atenção.


O Internacional registrou dívida total de R$ 834,8 milhões em 2024, crescimento de 17% em relação ao ano anterior. O Grêmio encerrou o exercício com dívida de R$ 562,3 milhões, aumento de 7%.


Isoladamente, o tamanho da dívida não determina a gravidade do problema.

Uma empresa pode possuir dívida elevada e continuar saudável.

O fator determinante é sua capacidade de pagamento.


E é justamente aí que surge uma questão relevante: o estudo mostra que o Internacional possuía apenas R$ 3,8 milhões em caixa ao final de 2024. O Grêmio apresentava R$ 11,1 milhões.


Sob a ótica da gestão financeira, essa combinação merece atenção: dívida elevada associada a baixa liquidez.


Em outras palavras, o problema não é apenas quanto se deve.

O problema é a capacidade de honrar compromissos sem depender continuamente de novas receitas extraordinárias, venda de atletas ou aumento do endividamento.


E é exatamente esse tipo de situação que frequentemente leva empresas e organizações a processos de recuperação judicial com foco em reestruturação financeira.


O ciclo da dependência financeira

Quando a receita cresce, muitos clubes aumentam seus gastos.

Quando os gastos superam as receitas, surgem déficits.

Os déficits geram novas dívidas.

As dívidas exigem geração urgente de caixa.

A solução passa a ser vender jogadores para fazer frente às necessidades de caixa.

A venda gera receitas extraordinárias, o que faz com que os clubes aumentem seus gastos.


E o ciclo recomeça.


Sem mudanças estruturais, o aumento de receitas acaba servindo apenas para alimentar um modelo financeiramente insustentável.


Fluxograma ilustrando o ciclo de dependência financeira dos clubes de futebol: aumento de receitas, crescimento dos custos, déficit, endividamento, venda de atletas e reinício do ciclo.


O verdadeiro desafio: governança

O estudo também revela problemas relacionados à transparência e prestação de contas.

Diversos clubes atrasaram ou deixaram de divulgar demonstrações financeiras auditadas dentro dos prazos legais.


Governança não é burocracia!


Governança é o mecanismo que permite aos gestores tomar decisões com base em informações confiáveis, monitorar riscos e proteger a sustentabilidade da organização.


No ambiente empresarial, investidores evitam empresas que não prestam contas adequadamente.

No futebol, a lógica deveria ser exatamente a mesma.


Como resolver?

Não existe solução única.

Mas existem princípios que funcionam tanto para empresas quanto para clubes esportivos:


  • Primeiro, gastos precisam estar alinhados à capacidade real de geração de caixa.

  • Segundo, a governança precisa ser fortalecida.

  • Terceiro, receitas extraordinárias não podem financiar despesas permanentes.

  • Quarto, é necessário diversificar as fontes de receita para reduzir a dependência da venda de atletas.


Por fim, o planejamento estratégico deve ultrapassar os ciclos políticos e eleitorais das gestões.


Infográfico apresentando os cinco pilares da sustentabilidade financeira dos clubes de futebol: governança, controle de custos, gestão de caixa, diversificação de receitas e planejamento de longo prazo.


Conclusão

O futebol brasileiro não sofre de escassez de receitas.

Sofre de deficiência de governança, disciplina financeira e gestão do capital de giro.


Os números de 2024 demonstram que dinheiro existe.


O desafio é transformá-lo em liquidez, solvência e sustentabilidade.

Porque arrecadar mais não garante prosperidade.


A verdadeira vitória financeira acontece quando uma organização consegue gerar valor de forma consistente, controlar seus riscos e construir um futuro sustentável.


Essa é uma lição válida para clubes de futebol, empresas e qualquer instituição que pretenda permanecer relevante no longo prazo.



Uma reflexão final

O futebol é apaixonante dentro de campo. Mas fora dele, continua sujeito às mesmas leis financeiras que governam qualquer organização:


  • Receitas crescentes não garantem sustentabilidade;

  • Marcas fortes não compensam déficits recorrentes;

  • E patrimônio histórico não substitui geração de caixa.


Ao longo da minha trajetória como professor de Finanças, conselheiro empresarial e especialista em reestruturação financeira, aprendi que crises raramente surgem da falta de receitas. Na maioria das vezes, elas são consequência de falhas de governança, ausência de planejamento financeiro e deficiência na gestão do capital de giro.


Os números apresentados pelos principais clubes brasileiros em 2024 reforçam exatamente essa percepção.


O desafio não é arrecadar mais!

O desafio é transformar receita em liquidez, liquidez em solvência e solvência em sustentabilidade.


Essa é uma lição que vale para clubes de futebol, empresas familiares, grandes corporações e qualquer organização que pretenda construir resultados duradouros.


Alexandre Lerch Franco, PhD

Head | SF – Strategy & Finance

Capital Allocation | Governance | Wealth Preservation


Fonte dos dados: Sports Value – Finanças dos Top 20 Clubes Brasileiros 2024.

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